Uma reconstrução histórica da Forgotten River Campaign (1856-1857)
Las Aguas Amargas del San Juan é um romance histórico baseado em fontes primárias que reconstrói o rio e a dimensão estratégica da Campanha de Trânsito (1856-1857), uma operação militar da Costa Rica que permaneceu à margem da memória oficial. Por meio da figura do Major Máximo
O livro baseia-se em diários de campanha, testemunhos militares, arquivos do século XIX e documentação internacional para narrar com rigor e tensão narrativa a série de operações que permitiram à Costa Rica controlar a artéria interoceânica mais importante do hemisfério antes do Canal do Panamá: a Rota de Trânsito, que ligava San Juan del Norte ao Lago Nicarágua.
O romance combina a precisão documental com cenas profundamente humanas: fome, febres, improvisação, combates navais e a vida cotidiana de soldados e civis envolvidos em uma guerra para a qual a Costa Rica não estava preparada. A narrativa segue Blanco e sua coluna fluvial de Sarapiquí a El Castillo, La Trinidad e o Forte de San Carlos, revelando um teatro de operações muito diferente daquele consagrado na historiografia nacional centrada em Rivas e Santa Rosa.
O livro destaca como, por meio de táticas de ataque fluvial, emboscadas, enganos e capturas de surpresa, os costarriquenhos conseguiram apreender nove navios a vapor, interromper completamente a logística de filibuster e forçar o colapso operacional de Walker no Caribe. Esse domínio militar teve profundas implicações geopolíticas: afetou os interesses dos EUA, alterou as rotas comerciais globais e redefiniu temporariamente a estabilidade regional.
No entanto, o livro não se limita a reconstruir a campanha. Ele explora a dimensão política de seu subsequente apagamento histórico. A ascensão de Máximo Blanco – cuja popularidade e prestígio militar cresceram rapidamente após a campanha – gerou tensões com as figuras políticas da época, especialmente entre as elites ligadas ao Presidente Juan Rafael Mora. Após a guerra, a narrativa oficial foi moldada de forma seletiva, exaltando alguns episódios e omitindo outros. A campanha do rio, sua importância estratégica e o papel de Blanco foram reduzidos a menções marginais.
O romance mostra como esse silêncio foi mantido na tradição historiográfica da Segunda República, que consolidou um imaginário nacional “pacífico” ao selecionar cuidadosamente os episódios militares que se adequariam ao seu projeto de identidade. Nesse sentido, Las Aguas Amargas del San Juan oferece uma nova leitura da formação da memória nacional e questiona narrativas profundamente enraizadas.
Além de seu valor histórico, o romance apresenta grande força literária: cenas sensoriais de selva, lama, febre e pólvora; personagens com profundidade moral; tensões internas na tropa; e uma paisagem que se torna protagonista. O rio San Juan – um espaço geográfico e simbólico – funciona como uma fronteira viva onde convergem geopolítica, conflito, traição e resistência.
Como um todo, o trabalho constitui uma reivindicação histórica, uma proposta para uma releitura crítica do século XIX centro-americano e uma contribuição significativa para o debate sobre soberania, território e memória na Costa Rica. Sua narrativa, apoiada por documentos verificados, abre uma conversa necessária sobre como a história oficial é construída – e manipulada.