A Costa Rica foi construída em dois grandes momentos republicanos. A Primeira República, forjada no século XIX, lançou as bases da soberania, da lei, da educação pública e de uma compreensão precoce do valor estratégico do território e do trânsito interoceânico. A Segunda República, nascida após 1948, consolidou a paz, as instituições democráticas, os direitos sociais e o prestígio internacional com base na estabilidade e no diálogo.
Ambas as repúblicas tiveram um progresso notável. Ambas também geraram vícios estruturais que se aprofundaram com o tempo: centralismo, deterioração do sistema judiciário, captura institucional, perda de confiança pública, enfraquecimento do investimento público, fragmentação do debate público e uma dificuldade crescente de pensar estrategicamente em um mundo que não é mais unipolar.
Falar sobre uma Terceira República hoje não implica negar ou desmantelar o que aconteceu antes. Implica integrá-lo, corrigi-lo e projetá-lo em um ambiente global radicalmente diferente. Um ambiente marcado pela multipolaridade, por novas potências econômicas, por cadeias de suprimentos estratégicas, pela competição por infraestrutura, dados e corredores logísticos e por um Sul Global que não é mais periférico, mas um ator.
O eixo conceitual deste livro é uma ideia simples e profundamente costarriquenha: a fronteira da água. Ontem era o rio San Juan; hoje são os portos, as ferrovias, a logística, os dados e a capacidade do Estado de negociar com base no conhecimento e não na improvisação. A fronteira não é apenas uma linha no mapa; é o lugar onde a verdadeira soberania é decidida.
A história mostra que a Costa Rica compreendeu desde cedo o valor do trânsito e do território. Também mostra que, em diferentes momentos, ela desistiu de gerenciá-los plenamente, seja por exaustão, pressões externas ou decisões internas mal calibradas. O resultado não foi uma perda de independência, mas uma autonomia limitada, especialmente visível quando o país tenta definir projetos estratégicos ou diversificar alianças.
Este livro propõe que a Terceira República deve ser construída com base em três princípios orientadores:
- Memória útil: recuperar a história não como um conto épico ou como uma arma política, mas como uma capacidade do Estado de negociar melhor o futuro. Um país que não entende seus precedentes sempre negocia em desvantagem.
- Instituições que atendam aos cidadãos: fortalecimento da justiça, da educação, do investimento público, da liberdade de expressão e do combate à corrupção, não por meio de retórica, mas por meio de reformas concretas que corrijam os incentivos e restaurem a eficiência do Estado.
- Autonomia estratégica cooperativa: manter e fortalecer as alianças ocidentais tradicionais – especialmente com os Estados Unidos e a Europa – enquanto constrói uma diversificação responsável em direção ao Sul Global e às novas potências econômicas, sem confrontos desnecessários e dependências exclusivas.
A Terceira República proposta aqui não é antiocidental, antiamericana ou rupturista. Ela é inclusiva. Ela reconhece que o mundo está se movendo em direção à multipolaridade e que se preparar para isso não é uma traição às alianças históricas, mas uma forma madura de preservá-las em um contexto de mudança.
O Water Frontier é, portanto, apresentado como um manual estrategicamente orientado. Cada capítulo buscará diagnosticar um problema estrutural, propor princípios de ação, sugerir reformas viáveis e apontar riscos. Ele não promete soluções mágicas ou unanimidade fácil. Em vez disso, o objetivo é elevar o nível da conversa nacional.
Se a Costa Rica quiser continuar sendo uma república estável, democrática e respeitada, deverá aprender a pensar grande sem deixar de ser prudente, a negociar sem medo e a se governar com memória. Isso não é um convite ao conflito, mas à maturidade histórica.
Esse é o objetivo deste livro. Esse é o espírito da Terceira República.
Este texto serve como uma carta de intenções para o livro La Frontera del Agua, a terceira parte do projeto Las Aguas del Olvido.