O rio San Juan e o problema da memória histórica em litígios internacionais.
Introdução
No direito internacional, a história não é apenas um pano de fundo narrativo: ela é uma contribuição estratégica. Tratados, sentenças arbitrais e julgamentos internacionais são interpretados – explícita ou implicitamente – à luz de contextos históricos que dão significado a conceitos como soberania, uso, controle efetivo e legitimidade.
O caso do rio San Juan entre a Costa Rica e a Nicarágua é um exemplo único de como a omissão deliberada de um episódio histórico importante – a Campanha de Trânsito de 1856-1857 – gerou um vácuo narrativo que condicionou, por mais de um século, a posição jurídica e política da Costa Rica.
Este artigo propõe uma tese simples, mas incômoda: quando um Estado renuncia a integrar totalmente sua história em sua argumentação jurídica, sua defesa soberana é estruturalmente enfraquecida.
A Campanha de Trânsito: um evento histórico com valor legal
Entre dezembro de 1856 e março de 1857, a Costa Rica executou uma operação militar fluvial estrategicamente complexa no rio San Juan. Sob o comando do Major Máximo Blanco Rodríguez, as forças costa-riquenhas capturaram navios a vapor, bloquearam a Rota de Trânsito – o principal corredor interoceânico antes do Canal do Panamá – e desmantelaram a logística de obstrução de William Walker.
De uma perspectiva contemporânea, essa campanha reúne elementos que hoje seriam considerados relevantes em termos de direito internacional:
- exercício efetivo de controle sobre uma estrada estratégica
- uso militar organizado e sustentado
- gerenciamento de recursos capturados
- defesa da integridade territorial em face de uma ameaça transnacional
Entretanto, esse episódio não foi sistematicamente integrado à narrativa oficial da Costa Rica ou à sua projeção diplomática subsequente.
Do século XIX ao XX: a construção do silêncio
O silenciamento da Campanha de Trânsito não foi acidental.
No século XIX, o conflito político interno pós-guerra, as tensões entre facções e o trágico destino do presidente Juan Rafael Mora geraram uma narrativa seletiva do passado. Algumas figuras foram exaltadas; outras, como Máximo Blanco, foram relegadas às margens.
No século XX, especialmente após a criação da Segunda República, esse silêncio foi herdado e normalizado. A nova identidade nacional, centrada na desmilitarização e no pacifismo, tendia a minimizar episódios militares complexos que não se encaixavam na narrativa da fundação.
O resultado foi uma historiografia incompleta que, sem a intenção explícita de fazê-lo, deixou de fora um precedente com potencial impacto jurídico e geopolítico.
Tratados, prêmios e disputas sem um histórico completo
Desde o Tratado Cañas-Jerez (1858) até os prêmios de arbitragem Cleveland e Alexander e, mais recentemente, as sentenças da Corte Internacional de Justiça em Haia (2009, 2015), a Costa Rica defendeu com sucesso parcial seus direitos de navegação e certos princípios legais.
No entanto, essas defesas foram construídas sem incorporar explicitamente a Campanha de Trânsito como um pano de fundo histórico-operacional.
Isso gerou um paradoxo:
A Costa Rica defendeu a lei, mas renunciou a defender a história que deu densidade à lei.
Em termos práticos, isso permitiu que a narrativa regional e global percebesse o conflito como uma disputa puramente legal, desvinculada de um passado em que a Costa Rica exercia controle efetivo sobre o corredor fluvial.
Memória, soberania e o futuro interoceânico
Hoje, quando o mundo olha novamente para a América Central como um espaço estratégico para rotas interoceânicas, infraestrutura logística e alianças geopolíticas, o caso do Rio San Juan assume uma nova dimensão.
A memória histórica deixa de ser uma questão acadêmica e se torna um ativo estratégico.
A reintegração da Campanha de Trânsito aos entendimentos contemporâneos do conflito não implica a reabertura de disputas ou o questionamento de decisões judiciais. Implica algo mais profundo: restaurar a continuidade histórica necessária para que um país negocie a partir de uma posição de maior clareza, legitimidade e visão de longo prazo.
Conclusão
O rio San Juan não é apenas um limite geográfico ou um objeto legal. É um espaço onde a história, a lei e a geopolítica convergem.
Quando uma nação aceita uma memória fragmentada, ela também aceita uma soberania fragmentada.
A recuperação crítica de episódios como a Campanha de Trânsito não busca glorificar o passado, mas completá-lo. E somente uma história completa permite a construção de estratégias jurídicas e políticas à altura dos desafios do século XXI. E somente uma história completa permite a construção de estratégias jurídicas e políticas que estejam à altura dos desafios do século XXI.
Nota editorial
Este artigo é parte do projeto intelectual que acompanha a trilogia Las Aguas Amargas del San Juan – Aguas Silenciadas – La Frontera del Agua, dedicada a analisar a relação entre memória histórica, soberania e geopolítica na América Central.